Quem é patriota, discrimina a si mesmo

Texto 07

Muitos brasileiros têm um feio costume de repetir uma frase que diz: “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. Em eventos diversos, em locais diversos, por motivos iguais, estes brasileiros gostam de exaltar seu amor pelo país onde nasceram. São estúpidos por conta disto.
Muitos estadunidenses têm o estapafúrdio costume de hastear a bandeira dos Estados Unidos em algumas casas, em escolas, em todo lugar, inclusive na Lua, como se fosse uma ode ao patriotismo. São mesmo uns obtusos por conta disto.
Não importa qual seja o país, os cidadãos destes países, em sua maioria, têm interesse em mostrar orgulho por viver e ser de lá. Com a proliferação de hinos, de uniformes, de bandeiras, de conquistas, cada país tem o intuito de se mostrar melhor (ou pelo menos tão bom quanto) o país vizinho. E se, ainda, não há motivos para este orgulho, o interesse do país é alcançar o status que outros países já alcançaram. O objetivo do governo dos países é, mais do que tudo, formar cidadãos patriotas para, com isto, se mostrar melhor que os demais países. E esquecem-se do principal: não há motivos para se orgulhar de ser cidadão de nenhum país.
Certa vez houve uma reportagem no Brasil, perguntando às pessoas qual a cidade e/ou local da cidade que mais eles tinham boas lembranças. E a maioria citava uma cidade e local favoritos, justificando-se por recordarem de momentos bons da infância. A infância tem esta característica, de eternizar bons momentos para toda a vida, mesmo que eles não tenham sido tão bons assim na realidade.
Em certa postagem da Internet, corria um texto dizendo sobre as pessoas “corajosas” que saíram de seus países de nascimento para viverem, pelo motivo que fosse, em outro território. E exaltava a iniciativa destas pessoas, mesmo quando havia algum sofrimento de deixar para trás toda uma antiga vida. Tal postagem apenas reafirma a ignorância em que a maioria das pessoas está enterrada: a de que ama seu país de nascimento.
A verdade é que não existem países. Existe um planeta, denominado Terra, onde os humanos coabitam. Numa época não tão longínqua assim, alguns europeus soberbos decidiram por encontrar novas terras para exploração e aumento de seu poderio. Ao encontrar novas terras, repudiaram os povos que lá já existiam, e impuseram regras e limites. O país da Europa que tivesse mais condições econômicas, mais sorte, mais astúcia, mais barbárie, conseguia dominar regiões “melhores”. Países menos afortunados nesses aspectos conquistaram terras “menos interessantes”. Com o passar do tempo, as terras já conquistadas foram sendo rearranjadas pelos seus Governos. Os continentes eram imóveis, mais o traçado dos países foi sendo modificado através dos acordos econômicos de seus governantes.
Qualquer criança brasileira, que tenha tido aulas de História do Brasil, sabe, por exemplo, que o território brasileiro não tinha no passado o mesmo desenho que possui atualmente. Terras vendidas e compradas remanejaram seu desenho ao longo dos séculos. O Uruguai, até o século XIX, fazia parte do Brasil, denominado Cisplatina, enquanto o Estado do Acre, pertencia à Bolívia já no século XX. Porém, hoje, há uruguaios orgulhosos e patriotas por serem uruguaios, esquecendo-se de que aquela terra, um dia, fez parte do Brasil. Se tivessem que escolher entre ser brasileiro ou uruguaio, escolheriam ser uruguaios, “com muito orgulho, com muito amor”. O mesmo se dá com muitos acreanos. Até alguns séculos atrás eles poderiam se orgulhar de serem bolivianos, mas hoje enchem a boca para dizer que são brasileiros “com muito orgulho, com muito amor”. Resultado: é um orgulho e amor que foi comercializado entre os governantes do passado.
Assim como aconteceu na América do Sul, houve tais divisões em todos os demais continentes. Conforme ocorreu na época das grandes navegações nas Américas e na Oceania, a Europa também já foi “dividida” anteriormente, através de guerras, domínios, acordos, conquistas.  Na Ásia, ainda há isto muito claro atualmente, com territórios sendo remanejados de tempos em tempos, após um ditador cair, ou após a intromissão de estadunidenses em determinado país, ou após o poderio de uma célula terrorista. Ou seja, como os povos ainda não sabem coabitar, os países facilmente vão continuar trocando de mapas, nomes e culturas ao longo dos próximos milênios. E os futuros habitantes destes países remanejados, possivelmente, vão encher a boca para exaltar seu amor à pátria, estampando sua bandeira em todos os cantos, como se seu país fosse sempre o mesmo merecedor de tal glória. Apenas repetindo o que os poderosos do passado querem que eles repitam no presente.
Quando a família real se estabeleceu no Brasil, Dom João VI teve, por interesses econômicos, o desejo de unificar o território brasileiro. A cultura de Pernambuco, a cultura do Paraná e a cultura de Goiás, tão distintas entre si, por exemplo, foram unificadas naquela época. Antes desta unificação, os territórios eram mais “independentes” e criavam culturas próprias, tinham “leis próprias”. Dom João VI, querendo maior controle sobre suas riquezas, para não gerar conflitos entre culturas distintas, tentou difundir um mesmo núcleo base em que todos os brasileiros, tão diferentes entre si, se sentissem iguais perante o país. E funcionou. Era o início do patriotismo.
Quando o rádio foi inventado, o presidente brasileiro Getúlio Vargas fez o mesmo que Dom João VI. Utilizou o primeiro invento de difusão de informação de massa com alcance quase imediato, para unificar os povos brasileiros e transformá-lo em um país só. Funcionou de novo. A mesma música, a mesma informação, as mesmas culturas difundidas pelo rádio fizeram com que a população brasileira se sentisse orgulhosa por ser brasileira, quando culturas tão distintas se viram juntas. Viram que tinham algo em comum: a paixão pelo Brasil. Os governantes, fosse no Brasil Império ou no Brasil República, decidiam difundir patriotismo por motivos econômicos, e o povo, ignorante, acreditava que seu amor pela pátria era genuíno.
Os exemplos citados referem-se à História do Brasil. Não foram, e não são, os únicos casos no Brasil, e certamente situações parecidas ocorreram, e ocorrem, em todos os cantos do planeta. E a população precisa entender o quão manipulada é para, enfim, optar verdadeiramente se gosta ou não do país o qual nasceu.
O Brasil possui uma rixa com a Argentina. Se perguntarem aos brasileiros o motivo da rixa, a maioria não sabe dizer. Por que a rixa é com a Argentina e não com o Uruguai, o Paraguai ou a Bolívia? O mesmo deve ocorrer se perguntarem aos argentinos o motivo da rixa com os brasileiros. Mesmo que tenha havido no passado algum motivo real, uma guerrilha, um conflito ou qualquer coisa que o valha, já teria perdido a validade nos dias contemporâneos. Mas como a cultura do amor é produzida de geração para geração, a cultura do ódio, também. Crianças brasileiras de doze anos xingam argentinos porque seus tutores e toda a população o fazem. E o ódio é perpetuado sem nenhuma fundamentação lógica.
A rixa do Brasil também ultrapassa o continente e chega à Portugal. Igualmente sem fundamentações, pelo menos na atualidade, cria-se uma rivalidade com o país europeu. Mas falar mal de português ou argentino é passatempo para brasileiro, afinal, os cariocas têm rixa com os paulistas, o Sul tem rixa com o Nordeste, e percebe-se que a rixa vem de um único motivo: a diferença. Se outras pessoas têm outros costumes, outras maneiras de viver, pensar, agir, merecem ser repudiadas. E haverá quem diga que estas são rixas desimportantes, pois não causam nenhum grande estrago. É mais brincadeira do que realidade. E esquecem-se de que a maioria das pessoas não sabem o motivo destas rixas terem sido criadas, e esquecem-se de que no futuro, estas brincadeiras podem desencadear algo muito mais sério. Mas para quê pensar no futuro? Parece que poucos se preocupam com o futuro.
Há quem não acredite numa consequência ruim e insista numa “brincadeira” entre países, uma rixa que não tem consequências. E esquecem-se (ou talvez não queiram esquecer), que o motivo de uma rixa é a superioridade. Ao menosprezar um bairro, cidade, país ou continente, insinua-se que a sua região é superior. Não há motivos para o Brasil menosprezar a Argentina se ele não se considerar melhor do que o país vizinho. Ao debochar, diz-se que o Brasil tem pessoas melhores, cultura melhor, histórico melhor. E quando a Argentina debocha do Brasil, diz o mesmo. Os dois países dizem que são melhores, e usam argumentos mais voltados ao patriotismo do que dados compilados concretamente, permitindo, assim, mentiras por parte dos patriotas, que apenas gritam que seu país é melhor, independente da verdade. E patriotismo devia ser sinal de orgulho, e não de mentira.
O Brasil já sediou eventos internacionais de grandes proporções. Esportistas, artistas, políticos, cientistas, religiosos, e tantos outros profissionais, já estiveram nas cidades do Brasil para participar de eventos diversos de caráter mundial. E nos eventos onde há uma competição entre países, como a Copa do Mundo ou as Olimpíadas, por exemplo, os brasileiros se vestem de verde e amarelo e gritam seu patriotismo durante todo o evento. E vaiam os concorrentes de outros países. E também vaiam o presidente da República no início destas competições, quando este é mal visto pela população em geral. E neste momento o patriotismo perde todo o sentido. Ao se vestir com as cores da bandeira do Brasil, o patriota diz amar seu país. Ao vaiar o competidor internacional, ele diz que é um país melhor que os outros, porém intolerante, xenofóbico. E um bom país deve ser bom também no tratamento às demais nações do mundo. Então o patriota brasileiro já perdeu credibilidade, defendendo um país que não merece muito ser defendido.
No momento em que o brasileiro vaia o presidente da República, num evento de caráter mundial, diz para todo o planeta que existe uma população considerável insatisfeita com tal governante. E deve vaiar mesmo, se assim trouxer resultados, fazendo com que o governante seja substituído. Mas ao fazer isto num evento de caráter mundial, apenas diz às outras nações de que o Brasil é o melhor país nas competições, mas que possui um governo insatisfatório e uma população insatisfeita. E como o patriota vai defender um país se seus governantes não estão de acordo com seu patriotismo? O patriota é estúpido por vaiar o presidente neste momento ou estúpido por vestir-se de verde e amarelo neste momento, pois não está satisfeito com seu país para querer defende-lo nas competições internacionais. Estes brasileiros alegarão que os atletas destas competições nada têm a ver com os governantes, e merecem apoio. Ou seja, a torcida não é pelo país, é pela pessoa, pelo competidor, por isto deveriam vestir-se com roupas estampando os nomes dos atletas, e não com as cores verde e amarelo.
O patriota decide, segundo seus estapafúrdios critérios, o que o define como patriota. O brasileiro que desgosta de seu presidente da República, alegará que deve defender seu país numa competição internacional, torcendo para os competidores de seu país, esperando que vençam, pois tais competidores em nada refletem a política do país. Este é o mesmo critério que a Etiópia, país com pouca expressividade nas competições de natação nas Olimpíadas, usa para torcer pelos seus competidores. Nas Olimpíadas, o atleta da Etiópia chega entre os últimos colocados, e independente se isto é motivo de orgulho pessoal para o atleta, que tem dentro de si a satisfação de participar de uma Olimpíada, para a Etiópia é exemplo de falso patriotismo durante a torcida por seu atleta. Afinal, patriotismo é acreditar que seu país seja o melhor (ou um dos melhores), e quando os etíopes torcem pelo seu nadador, não acreditam que ele seja o melhor entre os competidores, mas tem a esperança de que, quem sabe, por um golpe de sorte, ele consiga chegar em primeiro lugar. Patriotas que contam com a sorte, e não com a capacidade, não são patriotas, são hipócritas.
Ainda no exemplo das Olimpíadas, onde um número limitado de competidores por categoria são aceitos para o evento mundial, ocorre outra hipocrisia. O barão de Coubertin, ao iniciar a tradição das olimpíadas modernas, queria, com isto, unir os melhores atletas de diferentes países numa competição “amistosa”. À época, os atletas não ganhavam nada além de prestígio. Mas o intuito era reunir os melhores atletas de alguns países. Com o tempo, outros países entraram na competição e as regras foram sendo remanejadas. Atualmente os atletas de países grandes, como a Rússia, por exemplo, disputam entre si para mandar seu melhor representante de determinada modalidade. O atleta não escolhido para representar a Rússia, pois ficou em segundo lugar, possivelmente tem muito melhor habilidade e técnica de disputar a modalidade do que o melhor dos atletas de países com menor expressividade nas competições, tal como a Etiópia na natação. Justo seria uma competição entre os melhores atletas, e não entre “todos” os países.
Geograficamente, a China é mais extensa do que o Cabo Verde, e mais populosa também, permitindo uma maior probabilidade de possuir bons atletas para uma competição. Já Cabo Verde, sendo mais diminuta em relação à China, tem as probabilidades de mais atletas reduzidas, fazendo, então, a Olimpíada ser um exemplo injusto de competição, pois a verdadeira competição seria entre os dois melhores atletas chineses ao invés de um chinês disputar com um cabo-verdiano, uma vez que os números e conquistas dos dois chineses são melhores do que do cabo-verdiano. E com isto não é dito que os cabo-verdianos não são capazes de disputar uma prova com um chinês, porém os números que cada um dos atletas alcança para se classificar para as Olimpíadas são distintos. E só por aí já é possível ter uma noção da qualidade técnica de cada um.
O chinês que ficou em segundo lugar em seu país, não teve a chance de vivenciar uma Olimpíada apenas pelo acaso de ter nascido na China. Se o destino o fizesse nascer em Cabo Verde, ele seria o primeiro colocado e estaria disputando a Olimpíada junto com seu conterrâneo chinês, que ficou em sua frente na colocação geral. Não se trata, então, de uma competição justa entre atletas, e sim uma competição para comunhão dos países, mas ainda assim mostrando os poderios de cada um, fazendo haver mais desunião do que união. Nem quando o mundo decide se unir para eventos pacíficos ele consegue gerir regras justas.
Os exemplos citados utilizaram as Olimpíadas, mas é extensível para qualquer feira tecnológica ou encontro religioso que envolvam diversas nacionalidades. Nem sempre é visível, mas a disputa entre países ocorre o tempo todo, e os países não capacitados para tais disputas mantêm esperanças de que consigam, quem sabe, alcançar o posto máximo, usando sempre de seu patriotismo, mesmo que sua racionalidade informe que não estão devidamente capacitados.
Retornando ao exemplo do brasileiro vestido de verde e amarelo, numa competição internacional, na Olimpíada, numa disputa qualquer entre um etíope e um russo, onde o russo tem melhores resultados, o brasileiro pode optar torcer pelo etíope, como forma de incentivo ao atleta, ou como desdém ao atleta russo, ou por crença de que o etíope seja realmente o melhor competidor. Das três possibilidades citadas, somente a terceira opção deveria ser válida para a torcida. Pois ao escolher algo ou alguém para torcer, julga-se como a melhor opção. Numa corrida de cavalo geralmente não se aposta no cavalo que acredita que vá perder. Ao escolher torcer por uma escola de samba no carnaval carioca, opta-se pela melhor, segundo critérios próprios. Ao torcer por um time de futebol, acredita-se que aquele time é o melhor, pelo motivo que for. Então a torcida pelo etíope, só deve ocorrer por crença em sua capacidade técnica como o melhor atleta, e não como incentivo a um país sem expressividade nas competições, pois com isto há uma injustiça com o atleta mais bem preparado da Rússia, que ganha sem merecimento, pois os verdadeiros adversários (talvez da própria Rússia) não estavam presentes. E repetindo: um etíope tem tanta capacidade de ser campeão como qualquer outro atleta, porém questões culturais, econômicas, geográficas impossibilitam um melhor desempenho na atualidade. Talvez este quadro se modifique no futuro.
O brasileiro, ainda no mesmo exemplo, que tenha torcido pelo russo ou pelo etíope, utilizando o critério que fosse, no momento da competição entre um brasileiro e um italiano, por exemplo, tende a torcer pelo Brasil. Mesmo que os italianos estejam mais bem preparados, o patriotismo brasileiro o fará torcer pelo seu atleta, mesmo acreditando que este atleta não esteja tão bem preparado assim. Mas, no entanto, se por um deslize do italiano, o brasileiro vença a competição, o ego do brasileiro infla, acreditando que é o melhor. Esquece-se que a competição foi vencida por um deslize do adversário, e não por capacidade do atleta brasileiro (mesmo que uma competição esportiva seja feita com estas características). O patriotismo, mais uma vez, vem da sorte, e não da capacidade.
No campo político, com medidas cautelares referente aos imigrantes, os países se prejudicam com o patriotismo. Quando os Estados Unidos constroem um muro na fronteira com o México, acreditam que, desta forma, estarão dividindo nações e prezando suas culturas, sua economia, sua segurança, afinal o país vizinho é bárbaro, é usurpador, é perigoso (pelo menos segundo os critérios estadunidenses). O dinheiro dos Estados Unidos tem que continuar nos Estados Unidos. Os estadunidenses hasteiam suas bandeirinhas em carros e residências, alegando serem uma nação livre, mas se fecham dentro de um pequeno espaço territorial, ao invés de explorarem o mundo como cidadãos do mundo. Cidadãos livres não possuem muros. Além do mais, se o México é um país bárbaro e medíocre, nada mais justo do que um país rico e livre como os Estados Unidos abrir suas portas para ajudá-lo, e aí, sim, ser um país melhor. Um país que se fecha para os problemas alheios é um dos piores tipos de país que existe, pois podem ajudar e não o fazem, são egoístas.
Mas como o México não é um país bárbaro e nem medíocre, possui uma vasta cultura, culinária, música, monumentos, que seriam tão enriquecedores para a vida dos cidadãos estadunidenses, que, infelizmente, preferem acreditar que são ricos, fechados em seu território. Um país que não conhece novas culturas é um país que acredita ter a melhor das culturas. Pena que estes sejam os mais medíocres.
Países como a Coréia do Norte, Cuba ou China, por exemplo, conhecem outras culturas. Atualmente a globalização permite que não haja nações isoladas, a menos que estas assim prefiram. Mas entre a cultura holandesa, indiana ou conguesa, o governo norte coreano acredita ter a melhor das culturas. Do contrário, teria aderido a qualquer outra. A Coréia do Norte acha que suas leias, suas tradições, são as mais certas, as mais justas, as mais normais. Se verdadeiramente acreditassem que as leis da Índia fossem as ideais, já teria alterado suas leis para o mais próximo das leis deles. Ao não aderir, dão a entender que aceitam o diferente, mas não dentro de seus domínios. 
Os seres humanos não são iguais. Biologicamente são iguais, mas dependendo da parte do planeta onde estejam, serão obrigados a cumprirem deveres distintos. Há país onde a eutanásia é permitida, e há país que prenda pessoas que auxiliam a eutanásia. Há país que o casamento gay é legalizado e há país em que dois homens que sexuaram são condenados à morte. Há país que é permitido usar a maconha de forma recreativa, e há país que é proibido seu uso de qualquer forma. Há país que um determinado pesticida é aceitável em suas colheitas, e há país que o mesmo pesticida foi abolido por fazer mal à saúde. Há país que mulheres podem ser presidente da República, há país que a mulher sequer vota. E um conhecedor de todas estas culturas, vai optar por viver naquele em que as leis, segundo seus critérios, sejam as melhores. Um gay que possa não viver num país que mate os homossexuais, geralmente opta por viver longe deste país. Já uma mulher que preze por sua liberdade, opta por um país onde as mulheres tenham direitos iguais. Mas a maioria das pessoas, mesmo querendo sair de seus territórios, não o fazem porque as políticas dos países vizinhos não permitem sua entrada lá, vivendo mediocremente na terra em que nasceram.
E, mesmo com regras contra si, algumas pessoas continuam optando por viver em seus países de origem, afinal é lá que estão a família, os amigos, os costumes, as lembranças, e tentam driblar os inconvenientes ou aceitam as regras como são impostas. Não é raro, após anos de conflitos ou guerras, mesmo com lembranças de dor, morte, desespero e fome, algumas pessoas de determinada região que decidem por voltar a estas terras após o fim da violência. Acreditam que aquele é o lar delas. Mesmo que haja lembranças de crianças mortas na rua, de decapitações, de momentos de sofrimento, ainda assim, estas pessoas não abrem mão de “sua terra”. Acreditaram que, ao nascer em determinado solo, só àquele solo têm direito, quando na verdade, deveriam escolher o solo em que fosse mais agradável viver, seja pelo clima, seja pelas lembranças, seja pela política. Mas as políticas impossibilitam essa locomoção de pessoas. Se o acaso faz um bebê nascer atualmente na Bolívia, fará este bebê, obrigatoriamente, seguir regras para ir ao Japão ou à Madagascar. Mas este bebê, livre, deveria ter autonomia de ir-e-vir. Mas as políticas, os acordos do passado, os interesses econômicos do presente, fazem com que cidadãos do mundo fiquem presos ao solo onde nasceram, mesmo que este solo tenha terremoto, ou faça muito frio, ou tenha muitos predadores naturais. Com a ajuda da Anistia Internacional, por conta de motivos específicos, algumas pessoas conseguem se locomover. Ou se o dinheiro permitir, também. Do contrário, seres humanos são prisioneiros de fronteiras invisíveis.
Quanto mais muros existirem entre países, menos conhecimentos seus povos terão entre si, causando mais facilmente atritos. Um cidadão que apoia as fronteiras, deixa de ser livre para transitar pelo mundo todo. Um patriota que acredita no seu país como o melhor, mesmo ele não o sendo, é um mentiroso e prisioneiro deste país. No momento em que as fronteiras forem abolidas, e os humanos puderem circular pelo planeta em que nasceram, haverá mais entendimento do “diferente”, haverá mais conhecimento e menos conflito por conta disto. A humanidade e o mundo ganham, mas para isto devem esquecer de seu patriotismo ilusório
Um brasileiro que conheça tradições da Austrália, da Alemanha ou do Suriname, irá vivenciar experiências novas. Verá culturas “exóticas”, experimentará sabores “estranhos”, seguirá leis “esquisitas”. Ao voltar para o Brasil, relatará as experiências, mas geralmente optando por um tom de incredulidade naquilo que vivenciou, como se os outros países tivessem costumes errados, ou estranhos, e somente o Brasil tivesse costumes certos e normais. O brasileiro foi levado a crer que, apenas porque foi criado em um determinado território, aqueles costumes são os “corretos”. Opta por conhecer os outros países, mas só aceitaria morar no Brasil, pois é ali que se sente em casa. E continua se vestindo de verde e amarelo.
Já um australiano, um alemão ou surinamês, tendem a crer da mesma maneira que o brasileiro. Conhecem as “exóticas” culturas, e depois voltam ao seu país de origem. Cada cidadão acreditando que a sua cultura é a mais certa. E muito disto se dá pelo patriotismo que se vende a estas pessoas.
Certamente as culturas serão transformadas no dia em que não houver mais patriotismo. Quando os cidadãos do mundo, com culturas, hábitos, conhecimentos distintos conviverem mais próximos, todas as culturas de todas as regiões também serão transformadas. O patriotismo atual faz crer que isto será uma coisa ruim. De repente um gueixa do Japão transformaria os hábitos de uma tribo indígena da Amazônia, ou um esquimó levaria novos hábitos aos ingleses, acabando com o tradicional “chá das cinco”, por exemplo. Um inglês, no geral, não tem interesse em acabar com a tradição do “chá das cinco” (mesmo que o termo seja mais lendário do que real), porque acredita que esta tradição não deve morrer. Um costume (que foi criado em um momento da História) não pode ser transformado por outro costume (em outro momento da História). São cidadãos que não abrem mão de suas culturas por que acreditam que elas são tradicionais, são importantes, são históricas, são necessárias. Porém, ao acabar com um costume e acostumar-se com outro, por vezes, pode ser vantajoso. Mas o inglês não vai querer encerrar seu costume. Espera que o dinamarquês o faça com seus costumes. Mas o dinamarquês espera que o sul-africano o faça com os dele. E o sul-africano aguarda que o papuásio o faça. E assim, com medo de transformarem suas culturas, não se abrem para o novo.
Não existe cultura ruim. Não deve haver a extinção de nenhuma delas. Mas todas as culturas que existem, são provenientes de outras já extintas. Desde o início da humanidade no planeta Terra, não existe nenhuma sociedade que ainda exista com sua formação original. Toda cultura é um apanhado de tantas outras. E uma cultura que para no tempo deixa de enriquecer-se. Toda cultura deve ser maleável. Quem acredita em valores culturais inabaláveis nunca estudou História na vida, ou talvez acredite que sua cultura já chegou à perfeição. Mas a verdadeira perfeição das culturas é serem maleáveis, pois uma cultura engessada vira regra, vira lei, e culturas impostas não são as mais indicadas.
Se, como já informado, as crianças tendem a criar lembranças boas de momentos não tão bons assim, quando adultos, recusam-se a sair de seu local de nascimento por conta das lembranças. Qualquer outro lugar do mundo não o fará se sentir tão confortável quanto o local onde sempre viveu. E não há problemas quanto a isto. Ninguém deve ser obrigado a se deslocar para lugar nenhum. E este mesmo cidadão pode ter conhecido outras culturas e, ainda assim, preferir voltar para seu local de origem. Isto também não é um problema. Como todas as culturas devem ser respeitadas, a cultura local lhe agrada. Não há problema quanto a isto. O problema é ele gritar para o mundo que ama seu país, se orgulhar da sua terra. Se o seu país estiver livre de doenças, de violência, de desigualdade social, é motivo para orgulho, mas ao gritar que ama seu país, menospreza os demais países. E se estes países menosprezados não têm motivos para patriotismo ainda, o cidadão deveria fazer por onde em ajudá-los.
Se um brasileiro patriota não tentar ajudar a Venezuela ou o Chile ou a Bolívia ou a Guiana Francesa, terá que arcar com a consequência de uma possível guerra futura entre estes países atingir seu amado Brasil. Amar o Brasil é ajudar as pátrias irmãs. Unificando os países e os continentes, este mesmo brasileiro pode ter acesso a uma gama de cultura mundial, pois não haveria um estúpido presidente norte americano sancionando leis que impossibilitem a entrada de cidadãos do mundo eu seu país. E o brasileiro poderia ser livre para professar a religião que achasse mais conveniente, sem com isto acreditar que poderia ser rechaçado por causa de suas escolhas. Ser patriota é pensar além se eu país.
Mas um brasileiro, no ano de 2017, consciente das estatísticas sobre desemprego, inflação, saúde, segurança pública, educação, cultura, não tem motivos para patriotismo. Ser patriota é não votar em branco, nulo ou abster-se nas eleições. Ser patriota é não torcer para o Brasil num campeonato de futebol, sabendo que há desvios de verba, manipulações em resultados, superfaturamento, corrupção nos clubes de futebol. Ser patriota é não torcer para o Brasil numa corrida de Fórmula 1, onde escândalos de equipes que programam os resultados existem. Ser patriota é não idolatrar produtos importados que, nem por isto, tem qualidade superior. Ser patriota é respeitar o próximo. Mas os brasileiros não se respeitam. Não, não são patriotas. Fingem ser nos eventos esportivos e nas passeatas de rua. Mas são tão hipócritas quanto qualquer patriota de qualquer país.
Se a Dinamarca, a Suécia ou a Finlândia, por exemplo, eventualmente divulgam estatísticas de bom desempenho em diversas áreas, ainda assim não são países perfeitos. Só haverá um país perfeito no dia em que a Terra for livre para os humanos se respeitarem, se locomoverem, interagirem. E o patriotismo não tem lugar neste mundo, pois não há razão para exaltar sua cultura, afinal, todas as culturas são boas.
E, claro, é possível que um cidadão do mundo, que tenha vivido em diversos países tenha o discernimento de, sim, escolher uma região em que mais tenha se identificado. Exaltar esta região não é uma coisa ruim. Ao fazê-lo, ao enaltecer seu território como sendo o melhor que conheceu, apenas faz com que outros cidadãos também queiram viver nesta área. E isto não é possível no mundo contemporâneo. Do que adianta um estadunidense dizer que tem orgulho de ter nascido nos Estados Unidos, se um sírio não pode viver lá? O patriotismo do estadunidense é, na verdade, um deboche ao sírio, dizendo que ele tem uma vida boa e os outros povos, não. E se a Síria for um bom país para viver, o sírio falará o mesmo para o estadunidense. E o patriotismo de ambos países se tornará uma tentativa de convencimento do outro povo vir juntar-se a eles. Mas o que eles não querem, atualmente, é se unir. Então o patriotismo não tem absolutamente nenhum sentido. Ou melhor, tem sim: ser patriota é ser debochado, é ser soberbo, é ser mau.
Os exemplos citados focaram prioritariamente o Brasil, mas em qualquer país das Américas, da África, da Oceania, da Ásia, da Europa ou da Antártida, teriam resultados similares. E este texto também não menospreza ou exalta qualquer cultura, tradição ou costumes. Apenas faz refletir que o que cria o patriotismo, é a divisão de povos que deveriam estar unidos.
Ser patriota é ser orgulhoso de seu país. O contrário de orgulho é humildade, singeleza, modéstia. E os países precisam ser mais humildes, singelos e modestos com outros povos. Então não há motivos para patriotismo. E com isto não significa que deva haver vergonha, humilhação, constrangimento em fazer parte de um povo. É importante que o patriotismo não seja somente a lágrima escorrida quando o país é eliminado de um campeonato esportivo. Patriotismo é respeitar o local onde se vive. E todo cidadão vive no planeta Terra.

Comentários

  1. Respostas
    1. Obrigado! Estou sempre em busca de novas reflexões acerca de velhos assuntos.

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  2. Respostas
    1. Fico contente! Aguardo ansioso pelo dia do fim das fronteiras e união dos povos.

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  3. Respostas
    1. Obrigado! Bem-vindo ao blog. Tal como no planeta perfeito, aqui também não há fronteiras!

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