Animal X Animal

Texto 05



Burro é burro, homem é ignorante; piranha é piranha; mulher é promíscua; porco é porco, homem é anti-higiênico; baleia é baleia, mulher é obesa. Existe uma enorme variedade de nomes de bichos associados aos humanos, em sua maioria em intenção pejorativa, quando na verdade deveria ser o oposto. Ser chamado de burro, piranha, porco ou baleia deveria ser elogio. Ofensa deveria ser chamado de "gente", "pessoa", "humano". Ser associado ao bicho, seja ela qual for, é um elogio. Ser associado à "raça" humana é de profundo mau gosto.

Quando um burro empaca, um humano grita, berra, xinga, chicoteia. O burro não fez o que o humano "mandou", por isto o burro é sinônimo de ignorância, quando na verdade o burro empaca porque é inteligente. Empacou porque tem personalidade própria, vontade própria, e não faz o que lhe mandam. Se ele quer parar, ele para. O humano, vaidoso, acha que sua vontade é lei, e reclama com o burro, acreditando que ele deveria fazer suas vontades. Mas burro é inteligente, e faz só aquilo que lhe apetece, ou pelo menos até a dor dos chicotes for insuportável e ele se perceber no estado de escravo e acabar por obedecer. Ser chamado de mula, anta, toupeira, e demais animais pela sua pouca inteligência, resvala no mesmo exemplo. Cada um deles faz aquilo que quer fazer, e não aquilo que um humano decidiu que deveriam fazer. Cada um deles é inteligente por fazer o que quer fazer, mesmo que isto seja considerado estúpido por parte do estúpido humano, que acredita que tudo o que faz é inteligente. Se o cérebro de avestruz, sempre associado à sua pequeneza, consegue fazer uma ave imponente como o avestruz a fazer o que faz, com certeza é um cérebro melhor do que dos humanos. Um pequeno cérebro que permite que um ser grande como o avestruz corra, cace, emita sons, copule, com certeza é mais avançado do que o cérebro humano que é tão grande para movimentar um corpo humano bem mais diminuto em relação ao avestruz.

As galinhas, as piranhas, as vacas, as coelhas e outros tantos animais que copulem várias vezes com vários parceiros distintos fazem o que devem fazer para o bem da própria espécie. É o instinto, e não há problema com isto. Problema existe entre humanos que reprimem seus desejos sexuais e adquirem problemas psicológicos por conta disto. Falta de sexo entre humanos causa loucura. E os humanos são loucos por incutirem regras contrárias à biologia. O corpo humano foi feito para sexuar também, seja com quantos parceiros for. Mas o humano que o faz é taxado de vários nomes pejorativos, incluindo associações com os animais. E os animais são inteligentes. Fazem sexo para não enlouquecer, talvez, tal como as loucas regras dos seres humanos. Então ser associado à uma vaca é sinônimo de elogio, mesmo que queiram vender uma ideia contrária.

Chamar alguém de macaco é um crime no Brasil considerado racismo. Pelo menos quando envolvem humanos afrodescendentes. Ser chamado de macaco não deveria ser crime. Ser chamado de gente, sim. O macaco tem comportamento próprio, hierarquia própria, conflitos próprio. O macaco luta com adversários, rola no chão, pula de cipó em cipó, mas ainda assim faz aquilo o que a natureza dele manda. Já o humano contraria suas próprias leis. E até aí, tudo bem, cada espécie vive conforme quer. A diferença é que o macaco não prejudica o ambiente do humano. Com exceção dos espécimes de macacos que vão à cidade dos homens em busca de comida, ainda assim não pondo em risco a comunidade do humano, o humano põe em risco as comunidades dos macacos. Destrói matas, mata espécimes, usa-os como cobaias, agem como verdadeiros monstros. Ser chamado de macaco é elogio, independente da cor da pele que se tenha.

Os porcos não são sujos, os cavalos não são grosseiros, os cachorros não são canalhas, as cobras não são traiçoeiras, os ratos não são marginais, a preguiça não é preguiçosa. Todos os animais são o que são, e isto faz deles ser superiores. Os humanos vivem contrários às leis biológicas e ambientais, isso faz deles seres vis. Os vermes e insetos possuem características peculiares, ou talvez não. Só são consideradas peculiares porque fogem dos padrões humanos. Se um cachorro, pato ou peixe possui um sistema funcional semelhante aos humanos, são considerados mais "iguais" e menos rejeitados por esta subespécie. Já uma aranha com patas em demasia, baratas com cascos resistentes, grilos com pernas alongadas, minhocas com gosma e sem membros são seres de outros planetas, são nojentos. Só são considerados nojentos porque são bem diferentes dos humanos. Mas estes seres merecem ainda mais consideração do que o tal dos humanos. Eles também são o que são, e isso por si só já os faz merecedores de posição de destaque no rol da vida.

Vendem a imagem que os insetos são nojentos, que sã descartáveis. Mata-se baratas, mata-se mosquitos, mata-se lagartixas e formigas com uma sensação de dever cumprido. Os humanos acham que a vida destes pequenos seres (em relação ao tamanho do humano) merecem desprezo. O que o humano esquece, ou finge esquecer, é que o mundo não é seu. Dentre todas as vidas existentes no planeta, entre animais e vegetais, a vida do humano foi uma das últimas a nascer. Mesmo com os milhões de anos necessários para o humano se transformar no que é hoje, já nesta época estes outros seres, os vermes, os insetos, os peixes, as aves, todas já existiam. Mesmo que estas outras vidas também tenham se modificado ao longo destes milhões de anos, ainda assim eles dominaram o planeta primeiro. Ainda assim estas vidas, depois de milhões de anos, encontraram uma forma de sobreviver no planeta. Até que o humano criou consciência e acreditou que mandava no planeta, que era um lugar só dele e conforme suas regras e vontades. E sua vida tornou-se demasiadamente importante, já das demais vidas, não. O que cresceu não foi o cérebro do humano, foi o ego.

O pato voa, o golfinho fica muito tempo debaixo d'água sem respirar. A lesma caminha na vertical, o leopardo corre velozmente. O camaleão troca de cor, a tartaruga se protege com o próprio casco. O canguru é forte, o camelo é resistente, o rinoceronte tem um chifre para usar contra inimigos, o tatu anda por baixo da terra. O humano não voa, não fica mais que poucos minutos sem respirar debaixo d'água, não caminha na vertical, não corre muito velozmente, não troca de cor, não tem uma crosta muito resistente para se proteger, somente uma pele frágil. O humano não faz muita coisa. Ele constrói coisas para fazer tudo o que os animais fazem. Constrói escudos para se proteger, constrói escafandros para respirar debaixo d'água, constrói carros para andar mais rápido. O sonho dos humanos é ser bicho, porque ser bicho é a melhor coisa, pelo menos é melhor do que continuar sendo humano. Mas para construir essas coisas o humano é capaz de destruir as coisas dos outros seres, porque julga que sua vida é mais preciosa do que às outras.

Animais chamados de irracionais podem ou não viver pacificamente. Os tubarões comem os peixes menores, a cobra come os camaleões, o leão devora a zebra, a águia devora o pardal, mas ainda assim o crocodilo vive pacificamente com os passarinhos que lhe comem os restos de alimento entre os dentes. Ursos, tigres, abelhas ou toupeiras tem "amigos" e predadores. Há quem seja mais predador do que presa, há o oposto. Ainda assim, mesmo entre esta sangrenta existência, há uma paz entre eles. Uma cobra engole um boi. E depois fica meses sem engolir mais nada. Um leão, dentre tantas zebras, escolhe uma (ou pelo menos escolhe a que conseguir capturar) e depois deixa as demais em paz. Não há ali uma rixa entre eles. Há a necessidade de viver. O leão precisa comer para viver e a zebra precisa correr para viver. Vence o mais apto. Mas não há guerra entre eles. Já quando o humano entra na equação as coisas transformam-se. Os animais irracionais não entendem que os animais racionais declararam guerra contra eles e usarão de toda a sua maldade para conseguir o que querem. A diferença entre o animal racional e o animal irracional chama-se maldade. A raposa não é má, o gato não é vingativo, as galinhas não conspiram (conforme um estudo que diz o contrário). Eles são autênticos, mesmo que isto cause o mal a outro ser, mas não por maldade, seja por instinto, seja por necessidade, seja por curiosidade, os animais não causam a dor alheia desnecessariamente. Não são perversos, malignos. Já os humanos escravizam. Acham que são o dono de tudo. São maus.

Os humanos criam animais de estimação. Cães, gatos, pássaros, peixes, tartarugas, hamsters, tarântulas, tudo é brincadeira para o humano. Se o humano quer escutar música mas não sabe cantar, aprisiona um pássaro em sua gaiola e escraviza-o. Pouco importa se tirou-lhe a liberdade. O que importa é sua necessidade de escutar seu canto. Para que ir à floresta se pode trazer a floresta para dentro de casa? Alguns usam o argumento de que, presos, eles estão protegidos. Se estivessem voando poderiam já estar mortos. Isto é verdade. Porém os humanos não usam estes argumentos para a própria vida. Ao invés de ficar trancado na prisão evitando ser atropelado, ser atingido por um raio, sofrer um acidente, preferem arriscar-se indo e vindo pelo mundo e fazendo o que quer. Se o humano pensa assim, por que ele julga que a ave enjaulada não pense assim também? Talvez por que julgue que a ave não pense. Ou seja, é sempre o humano dando ordens. Os animais que as obedeçam. O mesmo vale para os peixes no aquário. Mesmo que aquele peixe no aquário seja tão lindo de admirar e estudos indiquem que a memória de alguns deles é muito curta, isto não inviabiliza a necessidade deles estarem soltos. O peixe preso por estimação pode ser a condenação de outros, pois outros peixes podem morrer por falta de alimento, que talvez aquele peixe de estimação propiciasse ao ser devorado. Não se sabe, o que se sabe é que humanos não gostam de prisões, então porque aves e peixes gostariam?

Há casos de falcões que são soltos e voltam por livre vontade para suas "casas" humanas. Sim, possivelmente eles tenham associado o ambiente ao seu lar. Mas na maior parte das vezes eles são postos em gaiolas dentro das casas. Mostra que seu "dono" não confia plenamente no falcão, seja porque ele possa fugir, seja porque ele possa bagunçar o ambiente. De uma forma ou outra, permanece prisioneiro. E este estado vale para cada coelho, cada lagarto, cada cobra aprisionada na casa de humanos. Isto vale para cada gato e cão aprisionados na casa de humanos.

O humano decidiu que os animais iriam lhe prover diversão, por isto aprisionou cães e gatos. Qual a finalidade deles além da diversão? No caso de alguns cães existe a chance de proteção. Ainda assim é para atender a vontade do humano. O humano quer se proteger, e como não sabe morder direito, adquire um cachorro. E nas horas vagas brinca com ele. Joga a bola e quer que o cão a busque. Manda ele sentar e quer que ele obedeça. Manda ele rolar e dar a patinha e quer que seja atendido. O cão é o escravo particular do humano. Ensina onde ele deve fazer suas necessidades e bate se ele não aprender. Manda ele sair de cima do sofá, manda dormir fora da casa, grita e manda ele parar de latir. O cachorro não tem vontade própria, ele tem que fazer tudo o que o humano manda. Se não fizer é recriminado. Apanha, é ofendido, é expulso, é abandonado. Se ficou velho e doente e não serve para nada, é abandonado, é sacrificado. Para quê ficar com cachorro se ele não diverte ou protege o humano? O humano é seu senhor e coitado do cão-escravo que não o obedecer. E lógico que, por vezes, é melhor obedecê-lo e ter um lar e comida do que estar na rua desamparado e faminto. Não é culpa do cão aceitar as condições, é culpa do humano em acreditar que o cão é seu brinquedinho particular que faz o que quer e se não fizer sofrerá as consequências. Cães latem, isso é deles. O humano que reclama do latido do cão não quer um cão, quer um brinquedo que possa desligá-lo quando quiser dormir. O mesmo vale para os gatos. Mesmo que os gatos não tenham um histórico de obediência aos humanos muito grande, ainda assim são criados para fazerem coisas fofas para seus vídeos circularem pela Internet. Pôr fantasia nos gatos, pô-los em ambientes inusitados e ver o que farão é o que motiva os donos dos gatos. Querem companhia, pois são solitários, são idosos, são doentes, então adquirem um gato-escravo para lhes fazer companhia. O gato não adota o humano, o humano é que adota o gato. E quando vê gato sem um olho, com uma pata desproporcional, com pelugem diferenciada, ou qualquer outra característica contrária à perfeição, rejeita o gato. Só querem escravos bonitinhos. Escravos feios podem ser deixados à sorte. Não se pensa no gato, só se pensa em si. O humano só pensa em si.

Humanos usam animais para experiências em laboratórios. Se eles morrem ou sofrem, isto parece ser indiferente aos humanos. O importante é que os humanos descubram as curas para suas doenças, para seus problemas. Existe tanto humano marginal no corredor da morte que poderia ser usado nestas experiências que têm as vidas eletrocutadas numa cadeira sem contribuir significativamente para a sociedade. Já um bicho que nenhum crime cometeu tem sensações dolorosas, monstruosas, em prol do bem da humanidade. Mesmo que sejam apenas ratos. Não são apenas ratos. São ratos. Animais tão fofos e diferentes como todos os demais.

A cultura vende que o boi baba. Sim, o boi rumina, baba, mastiga, engole. A baba é só a saliva do boi. Humanos também têm saliva, e ficam dentro de suas bocas o dia todo e não se vomita por isto. A baba do boi não é nojenta. Ratos não são animais nojentos. Talvez quando vivem em esgotos e outros ambientes construídos pelo humano podem ter características menos agradáveis, mas aí a culpa é do humano, e não do rato. No geral eles são fofos como coelhinhos, como um hamster, um porquinho-da-índia, um canguru. Baratas e suas perninhas não são nojentas, apenas estão na mesma categoria ambiental dos ratos. O humano usa o vaso sanitário e se julga limpo. Os animais, seja um porco, seja um peixe-boi, seja um leão-marinho, seja um pinto no lixo, não são sujos, mesmo aqueles que possuam pulgas e carrapatos. As pulgas e carrapatos também merecem consideração. Como sempre o que os humanos julgam como sujo é aquilo que é diferente de si, e o modelo ser humano é o que todos os bichos deveriam ser. É esta a lógica do pensamento humano.

Os zoológicos têm como finalidade a pesquisa e a manutenção da vida animal. Se algumas espécies merecem a prisão perpétua em zoológicos para os humanos garantirem a permanência destas espécies no mundo é debate que merece atenção e melhor esmiuçamento, porém as pessoas que vão ao zoológico estão lá não para estudar os animais mas para se divertir com eles. Os animais são palhaços que devem entreter a população. Quando a criança volta do zoológico chateada é porque o leão e o hipopótamo ficaram deitados o tempo todo. Eles têm que fazer algo para entreter os humanos, afinal são os humanos os seus donos. Pelo menos os zoológicos têm uma finalidade, mesmo que não estejam atendendo-as. Mas os parques aquáticos não têm isto, pelo menos não quando as baleias e golfinhos entretêm a plateia com suas acrobacias. Há parques aquáticos que estudam os animais, mas se há animais entretendo os humanos, então não fazem corretamente seu trabalho. Animais, marinhos ou não, por vezes são tocados em demasia por mãos humanas. Estes animais geralmente sofrem estresse por conta da situação, mas isto não importa. Como já repetido: o importante é o humano se sentir satisfeito por ter feito carinho em um animal considerado fofo ou corajoso por pôr a mão num animal considerado perigoso. A vontade do humano, sempre, em primeiro lugar.

Nos circos a situação não muda. Animais tratados como brinquedos. Fazem acrobacias, põe-se em perigo, agradam a plateia. Aplausos. Aplausos quando os animais fazem papel de bobo. Bons tempos quando humanos escravizados faziam este papel. Com o fim da escravidão humana novos escravos foram localizados. Ser dono da vida alheia é o que interessa ao humano. Seja pelo motivo que for. Se o humano não tem força para carregar suas tralhas, põe em cima do camelo, do elefante, do avestruz. Se o humano não corre, monta no cavalo. Se o humano não tem força para puxar maquinário pesado, manda o boi puxar. Bicho é para obedecer ao humano. Pelo menos é assim que são tratados.

Independente de como a relação do humano com o bicho tenha se estruturado conforme os anos, o que deve ser compreendido é que a era do conhecimento humano chegou. É o que dizem. Então burro não puxa carroça. O humano já descobriu máquinas que fazem isto, com motor, com pedal, com alavanca, com energia solar, com rodas, mas não mais com burros. Não há necessidade de lã de ovelhas. A lã não é do humano, é da ovelha. O conhecimento do humano aprendeu a trabalhar com outros tecidos que o protegem do frio. Devem deixar a ovelha com sua lã e usarem outros materiais. As penas do pavão são do pavão. Já criaram as penas artificiais, não precisam mais usar a pena do pavão para adereços. Não é caso de vida ou morte, é só adereço, ou seja, por que sacrificar um pavão só para satisfazer a necessidade do humano ter acesso ao belo. Belo é contemplar o pavão livre. Não é necessário matar jacaré para fazer sapato e cinto. Já há materiais sintéticos. Pianos não precisam do marfim de elefantes ou rinocerontes. Já há materiais sintéticos. Dizem que o humano pensa, e ele pensou e criou materiais para substituir os animais, mas agora o humano usa dois materiais: o sintético e o animal.

Os humanos continuam vendendo aos seus filhos que animal é brinquedo. Caça o pato. Mata o veado. Captura a raposa. Tortura o touro nas touradas até sua sanguinolenta morte. E o povo aplaude. Põe cavalos para correr entre eles numa disputa que os cavalos não organizaram. E o povo aplaude. Põe galos para brigar. E cachorros também. E o povo vibra. Matam o urso para virar tapete. Matam o alce para virar troféu. Matam o guaxinim para empalhar e virar decoração. Matam o gato para virar tamborim. Roubam os ovos das galinhas. Roubam o leite das vacas. Matam baleias para capturar seu óleo. É a forma do humano mostrar toda a inveja das coisas boas que os animais têm que o próprio humano não tem para dar. No máximo uns órgãos internos para vender no mercado negro. De resto ser humano não tem nada de bom. Mas pelo menos os vermes gostam e comem tudo após a morte do humano. Ele serve para alimentar estes seres ao menos.

Animais não são propriedade do humano. Animal não é comida. Mesmo que haja uma batalha entre animais pela sobrevivência onde um come o outro, ainda assim o humano não deve tomar partido nestas questões enquanto não descobrir como induzir que todos eles convivam pacificamente. Mas o humano não pode comer o animal. Animal não é brinquedo, animal não é escravo, animal não é comida.

Há uma barbaridade que as pessoas adoram, chama-se churrascaria. Há quem frequente pelo menos uma vez ao mês. Se não numa churrascaria, num churrasco particular ao menos. O churrasco une os amigos, bebe-se álcool, escuta-se música. Momento de confraternização. Mas só quem fica feliz com isto é o humano, não o animal morto no prato do humano. Churrasco é o exemplo da soberba do humano se achar dono de tudo.

Nutricionistas dirão que só há proteínas obrigatórias para a vida humana saudável na carne de origem animal. Mesmo que esta afirmativa possa ser debatida com mais afinco com nutricionistas que dizem o contrário, ainda assim tomemos como verdade absoluta que para uma vida saudável o humano precisa de carne de origem animal. Então o humano come carne bovina. Para uma vida saudável talvez três ou quatro porções por semana. E mesmo que necessite de sete porções por semana, ainda assim a ida a churrascaria não é necessária. Churrascaria é ostentação. É comer além do necessário. O humano não come carne na churrascaria porque precisa, ele come carne porque gosta. Do contrário não haveria tantos churrascos e churrascarias. É a forma de dizer ao animal que ele não precisava morrer, pois o humano já havia sua quota de carne diária, mas como o animal é escravo do humano ele morre mesmo assim porque o humano precisa de prazer na vida, e por isto come o animal o tanto que quiser. E ai do animal que reclamar disto. E nenhum argumento utilizável fará o apreciador do churrasco mudar de ideia. Mesmo ciente de todo o excesso cometido, ainda assim sua individualidade falará mais alto. Não para deixar de comer carne, mas para evitar o excesso. Afinal a carne não comida ao fim do dia é jogada ao lixo e alguns animais terão morrido em vão por conta disto. Mas humanos não morreram para a churrascaria funcionar. Talvez no dia que os canibais comecem a oferecer carne humana nas churrascarias o assunto possa ser debatido melhor pelos apreciadores.

É de conhecimento geral que rebanhos inteiros, geração após geração, são tratados como coisa, são triturados vivos nos moedouros, são encarcerados em espaços minúsculos para não exercitarem seus músculos em demasia, e assim serem melhor saboreados pelos humanos. Os humanos não somente comem o boi, eles precisam que o boi facilite sua mastigação, por isto o boi fica quase o tempo todo de pé na mesma posição sem se mexer durante boa parte da vida. Afinal, ele tem que ser suculento ao morrer. É o humano dizendo que não come carne por necessidades proteicas, e sim por prazer sádico. E para quê parar só na carne de vaca? Humanos gostam de variedade. Comem carne de cavalo, de cachorro, de tartaruga, de coelho, de galinha, de peixe, de caranguejo, de pato, de peru, de polvo, de lagosta, de porco, de tubarão, de bode, de rã, de cobra, e de qualquer outro animal existente. Se os bichos fossem mortos só para a necessidade proteica, uma espécie de animal somente seria escolhida e consumida pelo humano. Mas humano não aceita que digam o que fazer, fazem o que querem, e o que querem é devorar toda espécie de animal que encontram. É só para reafirmar que não comem por necessidade, comem por prazer. Provando que bicho não tem direito, tem que obedecer. Se houvesse a necessidade somente, tal como a necessidade do leão, o humano não devoraria tudo o que encontrasse pela frente. Um leão que passe a vida toda comendo zebra não reclama da falta de variedade. Mas quem manda no mundo não é o leão, é o humano. Bicho é escravo do humano.

O argumento da necessidade de proteínas animais é o mesmo que os humanos usam ao matar um jacaré para fazer uma bolsa ou uma carteira. Mesmo que haja outros materiais no mercado, nada é melhor do que da pele do jacaré. Não se usa a bolsa ou carteira por necessidade, usa-se por maldade. Talvez somente a lã do carneiro proteja verdadeiramente do frio, então o humano não quer usar três camadas de roupa sintética para se proteger do frio, prefere roubar a lã do carneiro. É, os materiais sintéticos funcionam, mas não tem a melhor das qualidades. Mas o humano precisa ter tudo. Então explora o bicho. Não vão usar um trator para arar o campo gastando combustível e óleo se podem usar um boi de graça. Não vão carregar sua bagagem nas costas se podem explorar a mula. Os humanos não são só egoístas, são perversos.

Nas crenças espirituais existem oferendas de animais aos deuses. Se alguém quer recuperar um antigo amor, por que não costurar a boca de um sapo? Sacrificam galos, cachorros, bodes, porcos para os santos, para os deuses, para os demônios. A mentalidade do humano dita o seguinte: "eu quero! Se a entidade só me der o que eu quero se eu oferecer um animal, então eu mato o animal". É a vontade de que seus desejos humanos se concretizem que inocentes animais morrem. O humano que tiver vontade de algo que alguma entidade só atenderia matando um animal deveria se contentar em não ter o desejo aceito. Mas o egoísmo do humano fala mais alto. Egoísmo, não. Bicho não precisa de consideração, só os humanos precisam.

Bicho não é comida. Mesmo que os humanos tenham que comer animais, eles não devem comer do modo como comem. A camada de ozônio também está sendo prejudicada pelos gases emitidos pelos bois e vacas, provenientes da concentração do gado, que antigamente, quando não existiam churrascarias e uma sociedade mundana, viviam mais distantes entre eles, sem esta acumulação de vida para virar alimento. Para a criação destes pastos muito de mata é devastada. Outros animais são prejudicados, sem falar da flora. Há um ressecamento maior do ar, uma quentura maior na Terra, o aquecimento global também é proveniente do consumo da carne no planeta. Mesmo que na Índia não se consuma carne bovina, ainda assim outros animais lá são abatidos e o problema persiste. Se os antepassados dos humanos caçavam para sobreviver, atualmente há apenas a necessidade de se dirigir ao supermercado mais próximo. Lá escolhe-se a melhor carne e leva para casa. Carne esta que não foi caçada, e sim criada em cativeiros, em situações inadmissíveis para a vida. Mas a dona de casa não se incomoda se aquele animal sofreu antes de ser abatido. O importante é comê-lo. Deleitar-se. Não se incomodou se a galinha ficou presa numa gaiola minúscula com tantas outras, só esperando a hora da morte chegar. Siris e caranguejos, macacos, tatus, todos são criados e mortos para o consumo humano. E a vida destes animais não são vidas. Se um porquinho nasce para ser devorado ele não teve a chance de possuir uma vida. Ele não foi caçado e por azar devorado, ele desde seu nascimento já tinha este destino, ou seja, já nasceu morto. Foi engordado, tal como patos e outras aves, de forma inescrupulosa. Obrigam-nos a engolir o que não querem. Sufocam. Engasgam. Morrem. Mas humanos chupam seus ossinhos extasiados. Humano não se importa nem com vida de outro humano, por que se preocupariam com as dores que esses animais sofrem?

Os peixes saem da água e morrem. Humanos consideram a morte por falta de oxigênio uma das piores possíveis. Não poder respirar é desesperador. Mas como os peixes não têm mais do que simples barbatanas e expressões que humanos consideram como inexpressivas, não julgam que tirá-los da água seja tão doloroso assim. Se peixes tivessem braços e pernas se debateriam desesperados. Se seus olhos e bocas fossem mais expressivos, e se emitissem sons, com certeza demonstrariam aos humanos o quanto sofrem por falta de oxigênio. Mas como peixes não têm estas coisas, então o humano julga que a morte deles é tranquila. E mesmo que a morte fosse realmente tranquila, ainda assim a morte se daria por vontade do humano que o pescou e não do peixe que deixou de querer viver. Peixe é tão animal como os demais. Entre o grupo dos vegetarianos, existem dezenas de subgrupos. E vários destes subgrupos praticam o consumo de peixes e aves. Como se o fato de ser peixe ou ave merecesse menos consideração do que um mamífero. Mas ao menos evitam uma matança maior.

Um tigre no zoológico engole uma criança, logo depois é abatido. Um crocodilo devora uma pessoa, logo depois a busca por aquele crocodilo faz com que outros três crocodilos morram caçados. Uma cobra estrangula alguém e logo é linchada por uma comunidade. Os animais não podem ser quem são. A natureza deles é comer as pessoas, tal como as pessoas comem os animais. Mas se eles comem pessoas as pessoas se vingam deles. Bicho não pode ter vontade própria. São escravos das vontades humanas. Sem desmerecer a dor da tragédia de alguém ser devorado por um animal, isto não dá o direito dos humanos sobreviventes se vingarem do animal porque este fez o que sua natureza mandou fazer. Já a vingança do humano é proveniente da maldade humana mandando eles se vingarem. O humano obriga que os animais vivam conforme suas leis. Podem derrubar as árvores onde construíram seus ninhos, podem expulsá-los de suas cavernas, podem incomodá-los no fundo da terra ou no fundo do mar, mas se uma mariposa entra na casa do humano é logo escorraçada. Se um rato entra na casa do humano é logo envenenado. O humano é dono do planeta, os animais deveriam ser mandados a outro. Menos aqueles em cativeiro. Estes são prisioneiros para serem palhaços, máquinas, comida, medicamento.

Felizmente há pessoas vegetarianas no mundo que pensam no bem-estar da população animal. Felizmente há pessoas ligadas à proteção da fauna e da flora e tentam salvar ursos pandas, tartarugas, micos-leões, baleias e demais animais. Há donos de animais domésticos, sejam eles tartarugas, bodes ou lhamas, que os tratam com todo o carinho e respeito. Sim, há amor aos animais também. Têm humanos que pensam e agem em prol deles também. Infelizmente este número é reduzido proporcionalmente em relação ao número de humanos na Terra. Os humanos que pensam que são donos da Terra já puseram animais em extinção e tantos outros estão na lista. As girafas e os elefantes estão entre animais com números cada vez menores. Os rinocerontes também, assim como os felinos selvagens. Ou seja, os animais grandes, fortes e poderosos, estão perdendo as forças, não poderão mais se defender sozinhos. Se já não bastasse a caça que existe entre as próprias espécies, há esta caça exterminatória vinda do humano. Os bois não estão em vias de extinção. Mas mesmo eles (assim como os demais criados com o único propósito da alimentação) devem ser acudidos. Mesmo que o fim deles seja virar refeição de humanos, ainda assim merecem uma vida e uma morte dignas, o que não ocorre em grande parte dos matadouros.

Bicho não é comida. Bicho não é brinquedo. Bicho não é entretenimento. Bicho não é cobaia. Bicho não é máquina. Bicho não é feio. Bicho não é nojento. Bicho não é mau. Bicho é bicho. Todos eles, grandes ou pequenos, fortes ou frágeis, mamíferos, aves, peixes, anfíbios, répteis, insetos, aracnídeos, o ornitorrinco, todos merecem respeito por que são vidas. Se a vida do humano é tão importante para si, a vida do bicho também o é para si mesmo. Se o humano preza pela liberdade, pelo conforto, deveria ter a mesma consideração com o bicho. Se o humano quer viver no planeta Terra, o bicho também quer. E o bicho não se acha dono do planeta. Resta o humano parar de acreditar que é.

Comentários

  1. Que texto fantástico. Uma reflexão e tanto. Compartilhando.

    Beijão meu caro amigo Jonas.

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    1. Que bom que o texto remete à reflexão, Paulo Roberto.

      Espero que as pessoas que possam lê-lo analisem seu atual comportamento com relação aos animais, incluindo aqueles que por elas forem ingeridos, e percebam que atuam diretamente no bem estar do planeta e da vida, seja ela de qual espécie for. Há pessoas más no mundo que não se importam com a vida alheia, mas há aquelas pessoas que não se dão conta do que fazem por falta de reflexão. Este texto é para elas.

      Abraços.

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  2. Para refletir e pensar nisso todos os dias de manhã à noite

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    Respostas
    1. E após a reflexão, que haja posicionamento com relação à questão. Se alguém gosta ou não de animais, seja ela vegetariana ou carnívora, se tenha ou não um animal doméstico, que as pessoas não creiam que a vida delas é mais importante só porque são pessoas, portanto há a urgência do respeito ao animal, o que infelizmente não vem acontecendo há muito.

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