Sexo oral. Porém escrito!

Texto 03

Sexo anal é muito bom! Seja para quem penetra ou para quem é penetrado. É uma prática que proporciona prazer às pessoas envolvidas. Para os homens que têm o ânus penetrado, então, é uma prática com a tendência a ser mais prazerosa do que nas mulheres devido à proximidade com a próstata. O sexo anal é mesmo muito bom. Só não é bom para quem não gosta de praticá-lo. Aí ele é desconfortável, seja para o penetrador ou para o penetrado.

Assim como o sexo anal, também o sexo vaginal, o sexo oral, o sexo solitário, o sexo grupal e demais modalidades possíveis, tem quem goste e tem quem não goste. E isto é normal. Há homens que gostam de ter os mamilos estimulados e há homens que não gostam. Há mulheres que gostam de ter uma língua no ouvido e há mulheres que não gostam. Há homens homossexuais que gostam de usar comida durante o sexo e há homens homossexuais que não misturam comida e sexo. Há mulheres homossexuais que gostam de fazer sexo ao ar livre e há mulheres homossexuais que só fazem sexo no interior de suas casas. Há mulheres heterossexuais que gostam de fazer sexo com mais de um parceiro ao mesmo tempo e mulheres heterossexuais que não desejam mais do que um parceiro no sexo. Há homens heterossexuais que adoram ter o ânus estimulado e/ou penetrado e há homens heterossexuais que não gostam de ser penetrados no sexo anal. E tais preferências são completamente normais. Porém, há quem tente discordar.

Até o início do Século XXI a humanidade só existia por conta do sexo. A partir de então outras técnicas de fertilização e reprodução foram desenvolvidas e humanos já nascem sem a necessidade de uma relação sexual. Porém estes casos ainda são bem ínfimos se comparados aos humanos nascentes do sexo. Ou seja, o sexo é algo normal, natural e necessário. Ser contra o sexo é ser contra a vida. Infelizmente pessoas que nasceram do sexo o condenam tão veementemente como se fosse algo abominável.

O ser humano, após o nascimento, necessita de oxigênio, de alimento, de água, de sono, etc. Em determinada fase da vida o sexo se faz necessário também. Há culturas em que as mulheres já iniciam sua vida sexual após a primeira menstruação. Fisiologicamente o corpo já está preparado para a reprodução, mesmo que fisicamente o corpo ainda esteja em desenvolvimento. Porém, sem entrar no mérito de quando é a idade aceitável para iniciar a prática sexual, pois a História nos conta que meninas de 12 anos já eram desposadas, que meninas de 09 anos já engravidaram, que alguns meninos de 07 anos já sentiram satisfação sexual, o fato é que o sexo, desde a puberdade até o fim da vida é algo muito importante para o ser humano. Ao contrário da maioria dos animais, onde o sexo é utilizado única e exclusivamente para fins reprodutivos, o ser humano divide espaço com poucos outros animais que utilizam o sexo para o prazer além da reprodução. E o sexo, o desejo sexual é uma força muito poderosa. E quanto mais reprimido for, piores serão as consequências.

A humanidade é vaidosa. Gosta de se sentir querida, se sentir desejada, se sentir idolatrada. A humanidade gosta do poder. Tendo poder sobre outros humanos, outros seres ou lugares, os humanos se sentem maiores, com egos maiores. O humano gosta de ser bonito, gosta de ser inteligente, gosta de ser jovem, gosta de ser saudável, gosta de ser rico, gosta de ser capaz. E para que tudo isto? Qual o objetivo dos humanos ricos, bonitos, inteligentes? Fazer sexo! Os humanos só vivem para fazer sexo. A vida gira em torno do sexo! Toda a preparação de uma vida é focada no sexo!

Desde o nascimento de um humano até seus 05 anos em média ele ainda está conhecendo o mundo e entendendo como as coisas funcionam. A partir de então com as historinhas que eles escutam, com a televisão que assistem, com a vida ao redor que tenham, eles já são questionados sobre seus namoros. Tão comum é ver um adulto perguntando para um menino de 05 ou 06 anos se ele já tem uma namoradinha. E às vezes o menino responde que sim. Nesta idade uma namoradinha é só alguém do sexo oposto que se toma como parceira, porém não há nenhum tipo de envolvimento físico. Mas o que é uma namoradinha que não alguém para se preparar para o sexo futuro? E o sexo mencionado pode referir-se somente aos beijos, às carícias, ao andar de mãos dadas, ou seja, ao "prazer" de tocar outro corpo. Se não houvesse esse prazer o menino não precisaria ter uma "namoradinha". Basta dizer que ele tem amigas e que se diverte com ela. Ao pôr a nomenclatura de "namoradinha" entende-se algo diferente da amizade que se classifica, também, como o envolvimento físico. Ou seja, a também o sexo. E mesmo que o foco seja a reprodução futura, ainda assim o sexo é o ponto crucial.

Uma criança de 05 ou 06 anos não sabe o que é o sexo exatamente, não tem desejos sexuais ainda, mas já é induzida ao pensamento sexual que permeia a vida do ser humano, proveniente, inclusive, dos adultos para com eles. No decorrer da infância até o início da adolescência o mesmo ocorre com outras intensidades. Um menino de dez anos, que ainda não aflorou o desejo sexual, já se permite (por vezes) gostar de outra pessoa. É imaginar beijar, imaginar estar junto, tocar na mão, ou seja, novamente o contato físico, o desejo, o sexo. E este desejo aumenta e se transforma no decorrer da adolescência. Nesta fase os hormônios falam mais alto e os humanos pensam em sexo o tempo todo. O estudo, a escola, a família, os amigos, tudo é deixado de lado pelo sexo. Seja pelas dúvidas quanto à prática sexual, seja pelo interesse em praticá-lo. Tudo gira em torno do sexo. Ir à escola é flertar com uma moça; ir ao estádio de futebol é jogar futebol para se exibir para uma menina; ir à praia é paquerar um rapaz. Todos os atos realizados, seja ir ao cinema, ir à igreja ou ao hospital é pensar no sexo. No cinema observar pessoas ao redor que possam lhe atrair e fantasiar que algum romance (e sexo) acontecerá. Ir à igreja, com seus dogmas tão retrógrados, é reprimir sentimentos que o ser humano tem por instinto e faz com que se pense no proibido. Estar no hospital é esconder-se dos olhares de possíveis paqueras que não podem ver a moça doente e indisposta. Não pode haver mal-entendidos para um sexo futuro.

Após a fase adulta o homem trabalha para fazer sexo. Ele compra uma casa para levar sua parceira ao ato sexual. Ele compra um carro para ajudar a levar sua parceira ao sexo. Ele casa para ter sexo mais facilmente. Ele se forma, procura uma colocação melhor no ambiente de trabalho para poder ter mais dinheiro para fazer mais sexo com as suas parceiras. A mulher se enfeita para atrair olhares. Se veste para atrair a atenção para a sua feminilidade e sua atratividade sexual. Ela faz plásticas para ficar mais bonita e atrair mais parceiros sexuais. O sexo está o tempo todo na vida das pessoas.

Quando os humanos ficam mais velhos também buscam o sexo. Muitos idosos ainda praticam satisfatoriamente o sexo. Outros, porém, abandonam a prática. Seja por falta de parceiros, seja por falta de vigor físico. Mas o sexo continua na cabeça de todos eles. Os idosos que não praticam sexo pensam nele. O tempo todo.

Os comerciais de margarina apresentam um casal casado com filhos (ou seja, fizeram sexo), as telenovelas possuem incontáveis pares romântico com muitas cenas de sexo entre as de romantismo. O cinema tem sexo o tempo todo na tela. A Internet tem endereços eletrônicos para todos os tipos de interesses sexuais. A Indústria ganha dinheiro com roupas, cosméticos, perfumes, veículos, imóveis, eletrônicos, focando na necessidade do sexo alheio. E quem faz parte da Indústria foca o sexo alheio para lucrar e poder usufruir do seu próprio sexo também.

Então se os casais estão em toda parte, na mídia, nas artes, na História, dentro da casa das pessoas, por que o sexo continua sendo um tabu tão grande para a maioria das pessoas? Por que o medo do sexo? Se um homem homossexual se apresenta como tal numa roda de amigos, dificilmente um destes amigos se questiona se aquele homem pôs o dedo dentro do nariz pela manhã. Não se incomodou em saber se ele comeu pão ou bolo no desjejum. Não se importou com o tamanho da camisa que o amigo usa, se é grande ou pequena. Porém, uma dúvida lhe permeia na cabeça: será que este homem homossexual penetra ou é penetrado durante o sexo anal? Se um dedo entrou em seu nariz pela manhã não é motivo de questionamento mas se um pênis entrou em seu ânus, sim, isto é da conta das pessoas. Pelo menos é assim que parece.

Nas piadas que envolvem os homens homossexuais a maior parte tira graça dos prazeres anais. É reduzir um homem homossexual ao fato de somente buscar ter um pênis introduzido em seu ânus, em seu reto. E por que o ânus das pessoas é tão importante aos outros? Essa fixação anal tem vieses psicanalíticos, mas tem muito mais cultura do que doença envolvida. É cultural demonizar o sexo, mas como a reprodução é necessária através do sexo, as culturas demonizam todas as demais práticas.

Não é difícil encontrar um homem homossexual dizendo que precisa ter um pênis dentro de seu reto. Há alguns que se não têm esta prática em mais de três ou quatro dias já estão se sentindo enlouquecidos pela ausência. E há homens homossexuais que nunca praticam este ato e não sentem a menor falta. Em determinado documentário que focava a homossexualidade na comunidade judaica, um dos entrevistados, homem homossexual, disse que a religião judaica proíbe o sexo homossexual. Que em algum lugar do Torá está escrito que esta prática é abominável e merecedora da condenação eterna. Mas este homem disse ao seu rabino que ele e seu parceiro nunca fizeram o sexo anal, nem sendo penetrado e nem sendo penetrador. Os dois tinham uma vida estável há anos, mas o sexo dos dois eram carícias e não penetrações. E o rabino, diante desta informação, ficou sem argumento, pois queria condenar o ato, mas seu livro religioso só dizia sobre a prática anal, e nenhuma outra. Era um livro religioso reduzindo o homem homossexual ao sexo anal.

Existe, sim, homens gays que buscam o sexo anal. Que amam o sexo anal. E não há nenhum problema nisto. E há homens gays que não têm interesse em sexo anal, seja numa ou em outra posição, e isto também é perfeitamente normal. As pessoas são diferentes, têm desejos diferentes, têm interesses diferentes. E o sexo anal é muito prazeroso, mas só para quem gosta. Para quem não gosta ele é incômodo ou repulsivo. E o difícil é saber se alguém gosta ou não desta prática porque ela é prazerosa/desagradável ou porque a cultura a levou a ter alguma ideia errônea sobre a prática.

O ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton passou pelo polígrafo ao ser questionado se teve uma relação extraconjugal com sua estagiária e informou que não. O polígrafo disse que ele estava falando a verdade, mesmo que tenha havido sexo oral. Afinal o presidente não acreditava que o sexo oral pudesse ser considerado sexo. Ou seja, ele não mentiu. Mas na sua crença, sexo oral não é sexo. Mesmo havendo penetração (a boca é o orifício penetrado). Mas mesmo que o sexo oral tenha seus adeptos e também seus condenadores, dificilmente se vê uma campanha contra o sexo oral, afirmando ele ser uma prática abominável. Já numa marcha anti-gays com frequência se vê cartazes condenando o sexo anal. E qual a diferença entre a boca e o ânus no que se refere ao sexo? Por que pode haver a penetração num orifício e não em outro?

O ânus, carregado com seu estigma de local por onde passam as fezes, é mal visto por conta desta proximidade com a "sujeira". Mas a língua no ouvido, nos pés, no sexo alheio, e na própria boca alheia, é também tão carregada de bactérias quanto o ânus. E sem entrar no mérito de que as fezes também são usadas para satisfação sexual para uma determinada parcela da população. Então não pode ser somente a proximidade com as fezes. O estigma do sexo anal não é o ânus, e sim o sexo. Como já dito, o sexo vaginal não pode ser condenado pois senão não haveriam novas crianças a nascer. O sexo oral para muitos nem sexo é considerado, e sim apenas preliminares. Restou o sexo anal carregar a culpa. Seja um homem (homossexual ou heterossexual) ser acusado de depravação ou uma mulher (homossexual ou heterossexual) ser considerada devassa por praticá-lo.

O sexo incomoda. Muito! Caralho, piroca, pau, rola, jeba, tora, peru, pica, cacete, pinto, vara são só alguns dos inúmeros termos que são associados ao pênis. Outras associações serão encontradas para a vagina e para o ânus.  Dificilmente encontramos um termo tão grande de associações para outras partes do corpo. Geralmente uma panturrilha é também chamada de batata da perna, e só. Uma orelha é indicada como ouvido também, e só. O queixo parece ser só queixo mesmo. A barriga consegue ser chamada de abdômen, banha, gordura, pança e demais nomes, na sua maioria geralmente associados a termos depreciativos para aquelas barrigas consideradas grandes. Ou seja, inventam nomes para as partes do corpo que queiram depreciar. O joelho continua sendo só joelho, pois não chama a atenção de ninguém. Se o joelho é cabeludo, mole, duro, ossudo, pontudo, grande, pequeno, isto não parece ser interessante de comentários. Falar de joelho não tem graça. Mas saber o tamanho, a forma, o cheiro, o aspecto do pênis é muito interessante. O pênis chama mais atenção do que o joelho, por que? São partes do organismo tão importantes quanto. Mas o joelho não tem, ou tem poucos, apelidos. Já os órgãos sexuais têm inúmeras associações, e novas são criadas diariamente. É a fixação da população pelo sexo. A força dominante do planeta, da vida.

Mas se o sexo é importante, dominante, por que é tão carregado de estigmas? Ao ensinar as partes do corpo para uma criança de três ou quatro anos, indica-se cabeça, joelho e pé. E o pênis é chamado de pinto, ou lulu, ou piruzinho, etc. Quando a criança cresce a cabeça, joelho e pé continuam se chamando cabeça, joelho e pé. Já o órgão sexual muda de nome, até chegar ao pênis, nome que raramente é utilizado. Por que uma criança teria dificuldades de falar pênis mais do que cabeça, joelho ou pé? Com certeza não ensinam outras palavras para pênis por conta da dicção enrolada da criança, e sim por conta do estigma dos órgãos sexuais, do sexo. Sexo é errado. Tudo o que envolve sexo é ruim. O exemplo são os xingamentos, feitos para ofender.

"Vai para a puta que te pariu", "filho da puta" - frases associando a genitora de alguém com a promiscuidade com o sexo em sua profissão.

"Vai tomar no cu", "enfia no cu" - associando uma carga ruim ao sexo anal.

"Veado!" "bicha", "boiola, sapatão" - associando o sexo entre pessoas do mesmo gênero algo ruim.

"Porra" - associando o sêmen a uma situação ruim.

Todas as demais expressões consideradas chulas, ou seja, palavrões, envolvem o sexo de alguma forma. Ou condenam a prostituição, ou condenam as preferências sexuais de alguém, ou apenas falam sobre órgão sexuais, como no caso de palavras soltas como "caralho!", "cacete!". Outras expressões que ofendem seriam "seu feio", "seu bobo", "gorda", "seu estúpido". Uma pessoa gorda que é chamada de gorda pode se sentir ofendida, mas isto não é considerado palavrão. As crianças podem escutar esta ofensa. Pode passar na televisão. O que é palavrão são apenas associações ao sexo. Ou seja, o proibido é sempre o sexo. O errado é sempre o sexo.

Sem adentrar no histórico religioso e/ou moral de quando as práticas sexuais foram condenáveis e deixaram de ser normais, é importante que as pessoas da época contemporânea percebam o quão mal fazem por estigmatizar o desejo. Na Antiguidade, na Grécia, os filósofos (todos homens) buscavam a Verdade. Como a maioria das mulheres era analfabeta naquela época, tinham pouco conhecimento de diversos assuntos estudados pelos filósofos. E um filósofo, apaixonado pelo saber, se sentia muito incomodado em copular com mulheres sem conhecimentos. Era comum o sexo entre homens filósofos. Eles não eram, em sua maioria, homossexuais. Eram apenas interessados em copular com quem fosse merecedor de sublime prazer, ou seja, outros apaixonados pelo saber. E esses merecedores eram outros homens estudados como eles. Ou seja, os filósofos não eram homossexuais, mas ainda assim faziam sexo com outros homens, pelo simples fato do desejo deles ser a atratividade por pessoas inteligentes, independente do gênero. Hoje é conhecido como sapiossexualidade. São pessoas que se relacionam sexualmente com pessoas que consideram inteligentes, independente se possuem um pênis ou uma vagina.

Se um homem contemporâneo escutar que um homem faz sexo com outro homem em busca de sua inteligência, haverá grandes chances de associá-lo a um homossexual. Não acredita na sapiossexualidade. Achará que é só um modo pomposo de alguém não assumir sua homossexualidade e ainda assim poder praticar sexo com outros homens. Ele estará julgando, desta forma, o desejo de outros, dentro dos moldes de seu próprio desejo. Ou seja, se alguém diz que não é possível sentir-se atraído por alguém por conta de sua inteligência, independente do gênero, facilmente dirá que outra pessoa também não pode sentir este tipo de desejo.

O desejo é único, pessoal e intransferível. Há quem deseje ver a esposa sendo penetrada por outro homem, há quem deseje usar brinquedos sexuais, há quem deseje ser humilhado no sexo, deseje apanhar, deseje pessoas mais velhas, deseje pessoas deficientes físicas, deseje se fantasiar, etc. O desejo é algo natural. E há o desejo por fazer sexo com crianças, com animais, com deficientes mentais. Existe o sexo proveniente de vídeos snuff, onde o desejo é ver alguém ser morto. E este desejo é errado? Ter prazer sexual vendo alguém morrer é doentio? Se alguém disser que sim é porque condena o desejo alheio, como se só o seu próprio fosse o mais correto. Sendo que desejo é desejo.

Uma vez saiu num jornal a história de um rapaz com desejos pedófilos. Tinha seus quase trinta anos e desde o fim da adolescência só sentia atração por crianças. Quando seus pais descobriram ele confessou os desejos mas garantiu que nunca houvera feito sexo com uma criança. E se sentia mal por aquele desejo. Queria deixar de ser pedófilo, mas e o estigma de confessar que era pedófilo? Poucos têm a coragem de procurar ajuda profissional por conta disto. Mas após alguns anos de acompanhamento psicológico este rapaz se livrou destes desejos. Porém a reportagem em nenhum momento identificou o rapaz. Se o fizesse este rapaz não conseguiria mais sair de casa sem ser atacado por conta de seus antigos desejos. Haveria de ser estigmatizado pelo seu passado. Passado de desejos, e não de práticas.

Se um homem adulto se sentir atraído por uma criança de 10 anos é considerado pedófilo, ou seja, doente. Por que condenar seu desejo? Onde está o erro em desejar? O erro está na prática. Se o homem abusar de uma criança de dez anos ele deve ser punido por lei, porém o desejo sem a prática seria condenável por qual motivo? Por que este desejo seria diferente do desejo de comer um chocolate, andar de balão ou ser bailarina? Por que seria diferente do desejo de fazer sexo com pessoas morbidamente obesas, com asiáticos ou com pessoas inteligentes? Desejo é desejo, e não há mal em senti-los.

Há quem tenha o desejo de matar o vizinho. E onde está o mal neste desejo? É direito da pessoa desejar matar. Mas e se esta pessoa mata o vizinho? Aí teria cometido um crime. Teria que ser punida. Então não houve diferença entre desejo e ação? Sim, há diferença, e a pessoa que não souber esta diferença deve ser tratada, seja psicologicamente, seja dentro da lei. Afinal, há pessoas que desejam comer dez pizzas na mesma noite, mas depois da sexta não conseguem mais devorar nada. O desejo era uma coisa, mas na prática foi outra. Há pessoas que desejam serem penetradas por pênis de 30 centímetros, mas quando na prática vão ser penetradas não aguentam de dor e pedem para parar. Tinham um desejo que não pôde ser concretizado na prática. E se alguém quer matar alguém, deve ter a liberdade de ter seu desejo, mas na prática, mesmo que haja meios e oportunidade para o assassinato, tal pessoa deve refletir que nem todo o desejo deve ser realizado.

Então o sexo com crianças, ou com pessoas com deficiências mentais, ou indefesas, ou o estupro, ou que envolvam pessoas que não tem o raciocínio ou oportunidade de se defender, deve ser veementemente condenado. Mas não o desejo. O sexo com os animai, mesmo com aqueles animais que se mostram disposto ao sexo, ou seja, que mostram uma ereção para sexo com humanos, também deve ser evitado, pois os animais podem estar estimulados, mas em nenhum momento eles foram questionados para concordarem com a prática. Então a zoofilia deve ser evitada apenas pela falta de aceitação por parte dos animais, e não por uma anomalia das práticas. Mesmo assim o desejo deve ser respeitado. Se uma mulher diz que tem fantasias em fazer sexo com um cavalo é perfeitamente normal. Já sua prática seria questionável por abuso ao animal.

Ou seja, qualquer que seja o desejo de alguém, por mais perverso, doentio, absurdo, lunático que seja, não deve ser condenável. Desejo é só desejo. Mas com isto voltamos ao início do texto, que afirma que o sexo é a força motriz do planeta. Se é a força mais poderosa, facilmente as pessoas deixam-se ceder por seus desejos. Adultérios, estupros, pedofilias, entrada no pronto socorro com uma garrafa presa no reto, são inúmeros os casos de consequências por conta de desejos (e não instintos) atendidos. Se a humanidade cede tão fácil aos seus desejos, mesmo quando estes põem outros seres em prejuízo, e o sexo é a força mais forte da vida, existe forma de evitar essas mazelas?

Cada vez que alguém faz uma piada a respeito do sexo anal, põe mais dúvidas, vergonhas, moral, culpa, doença, em cima da prática. Sendo que o sexo anal é tão normal quanto beber café ou andar de bicicleta. A masturbação é tão normal quanto pintar ou cozinhar. Sexo oral, urofilia, sexo grupal, podolatria, tudo é tão normal porque não prejudica ninguém, desde que as pessoas envolvidas consintam, claro. E se é de comum acordo para todos, por que os fetiches são ainda vistos como bizarros ou doentios? São pessoas que querem o mesmo e sentem prazer com aquilo. E quanto mais a sociedade deixar de condenar estas práticas, mas livres as pessoas serão para exercer seus desejos (e, sim, instintos). Sem culpa pelas práticas o sexo vira algo natural, como na verdade o é. E casos como a pedofilia, por exemplo, que permanece como prática inaceitável, podem diminuir. Pois o sexo, uma vez sendo reprimido, pelo motivo que for, na maioria das vezes tem uma consequência na vida da pessoa reprimida. Com a liberação sexual estas repressões seriam aliviadas e pessoas com desejos inaceitáveis de prática podem ter a facilidade de conseguir se satisfazer com outras práticas, enfim, vistas com naturalidade. Não é garantia que funcione, mas há enormes chances.

Enquanto a medicina não inibe o desejo sexual das pessoas, melhor do que os reprimir é vivenciá-los. Homossexualidade não é doença. Incesto não é doença. Fetiches não são doenças. E se alguém não pratica determinado sexo, não há direito, e nem motivos, para condenar quem as faça. Existem formas de sexo, tais como a pedofilia ou o estupro, por exemplo, que são assuntos complexos que devem ter o acompanhamento de especialistas para a devida análise e solução, porém o desejo (desassociado da prática) é normal, seja ele qual for. Ninguém é mais homem por ter este ou aquele desejo. Ninguém é mais doente por ter esta ou aquela vontade. Desejos, fantasias, pensamentos, o campo das ideias é normal, mas a sociedade insiste em prejudicar a si mesma ao condená-los.

O que alguém faz ou deixa de fazer dentro de suas dependências, desde que de comum acordo com todas as pessoas envolvidas, não é da conta de ninguém. O que alguém faz com seu corpo no campo sexual não devia ser motivo de interesse. Há quem já tenha morrido com a asfixia erótica. Há casos de morte por excesso de masturbação. Há casos de disfunção erétil por conta de ereções demasiadas prolongadas. Há casos de morte por pessoas que fizeram sexo em locais perigosos. Há quem tenha parada cardíaca durante o sexo. O sexo é uma prática que envolve riscos. Riscos que envolvem doenças, gravidez, mortes, e uma infinidade de situações inimagináveis. Mas a sociedade será mais pacífica quando perceber que não há problema com o desejo sexual e com a prática sexual saudável.

Um marido que mata a esposa por conta de traição exacerbou o sexo. Imaginou a esposa sendo penetrada por outro homem e isto o incomodou. O corpo da esposa é da esposa e não do marido. Se o corpo dela quis fazer sexo com outro corpo além do marido, é direito dela. Mas o marido foi levado pela sociedade a crer que o sexo dela é somente seu. O sexo virou propriedade privada. Já um homem homossexual que andava pela rua e foi morto a pauladas por um homofóbico morreu por conta do sexo. O homofóbico imaginou o gay fazendo sexo com outro homem e isto o repugnou. Achou que tinha o direito de assassiná-lo. O homofóbico pensa demasiadamente em sexo. Já a filha que engravida do namorado é expulsa de casa pelos pais. Os pais não se permitem imaginar a cena da filha fazendo sexo. Preferem fingir que ela morreu e expulsá-la de suas vidas. A filha podia fazer muita coisa, mas sexo, não! E por muitas vezes a expulsão não é devido a gravidez, mas sim a prática sexual. O sexo dos outros é sempre condenável.

As sociedades já se permitem votar em mulheres ou negros para presidentes da República. Com o tempo novas características serão ignoradas encaixando-se na normalidade. Um anão para presidente poderá ser uma realidade algum dia. Porém se um presidente vir a público em Rede Nacional dizendo que gosta de ser chicoteado pela esposa num clube de swing vestido de mulher com facilidade ele perderá o cargo. Independente se estiver fazendo uma gestão competente. Se ele é um bom cidadão, se é justo com a população, se ajudou uma nação inteira com suas ideias progressistas, nada disto importará. O fato da população saber que ele se veste de mulher e é chicoteado pela esposa num clube de swing será o suficiente para a população condená-lo. Porém qual a condenação? Por ele fazer um ato normal na privacidade de seu dia de folga? A vida sexual de um presidente é da conta de uma nação? Não, não é. Nem de um presidente nem de ninguém. Não importa se o ator tal é gay, se a cantora está de namorado novo, se o apresentador se casou pela quinta vez. Estas questões, que são ligadas ao sexo, só dizem respeito à pessoa que vivencia e não aos demais. Mas a sociedade ainda não entendeu isto. Se o ator é gay ele deixa de ser bom ator. Se a artista plástica fez uma orgia em sua casa é logo taxada de depravada, de libertina. A sociedade não tem nada com isto, mas acha que tem.

Quando uma pessoa dá uma topada com a perna na quina da mesa, frequentemente grita: "porra!" Ou "caralho!". Ou qualquer outra expressão ligada ao sexo. Associa o sexo à dor, a algo ruim, deprecia o sexo. Qualquer xingamento, como já dito, remete ao sexo. As pessoas não se dão conta que elas próprias condenam o sexo com isto. E se conhecem uma moça que assume fazer sexo com um parceiro por noite, ou um casal que pratica swing, ou outra prática moralmente condenável, já são taxados de tarados, promíscuos. Um gay com HIV é logo taxado de promíscuo. A sociedade não permite que ele tenha se contaminado com uma droga injetável, por exemplo. Condenam logo o sexo. Sexo é ruim! Não pratique sexo! Sexo é errado!

Certa vez uma moça assexual, ou seja, que não tem interesse por sexo, nem com moças, nem com rapazes, ouviu de um homem que ela precisava ser estuprada para aprender o que era bom. Mas uma vez é a mentalidade que diz "se eu gosto, você tem que gostar também" ou "se eu não gosto, como você pode gostar?". O homem que disse este absurdo não acredita que a moça não tenha desejos sexuais, que não sinta prazer com a prática, não entende como alguém pode viver sem sexo. Ele gosta, já a moça, não. Ela não está doente, não está traumatizada, nada, apenas não gosta e não faz. Mas o sexo é assunto que todos dominam e exigem uma igual posição por parte dos outros. Porém, existe pessoas que não gostam de sexo, e isto é normal. Existem pessoas que gostam demais, e isto é normal. Às que gostam demais podem ter prejuízos caso façam sexo em demasia, mas o gostar é normal, o desejo é normal. E a sociedade não entende isto. Cada indivíduo só entende o seu próprio desejo, a sua própria sexualidade, e de mais ninguém. A medicina acompanha as patologias, para contê-las. Mas a medicina, ao longo dos séculos, já tirou desejos da lista de patologias. Quem garante que novos desejos não sejam retirados futuramente?

O sexo é um tabu, infelizmente. Tão presente, tão normal, mas tão marginalizado. O desejo é tão condenável, mesmo permeando o ser humano durante todo instante da vida. Mas a vida em sociedade é, e sempre foi, muito violenta, muito mesquinha, muito perversa, muito errada. O filme teuto-canadense "The Raspberry Reich" de 2004, dirigido por Bruce LaBruce, conta a história de um grupo de revolucionários que sequestram o filho de um grande empresário para exigir mudanças. Entre inúmeras cenas de sexo gay explícitas, há uma passagem onde a líder do grupo pede para seu namorado fazer sexo com outro homem. E alega que a verdadeira revolução social começa no sexo gay. Esta passagem, tão insólita, mas tão verdadeira, revela o caminho que a sociedade necessita tomar para uma vida mais justa, mais pacífica. A alegação da personagem é que o sexo é um tabu, moralmente condenável. Mas a sociedade aceita o sexo heterossexual, ele é o "normal". O sexo lésbico ainda é muito machista. Principalmente por conta dos filmes pornográficos, é um ato que atrai os homens heterossexuais e, então, aceitável. Já o sexo gay, entre dois homens, é a prática menos aceitável pela sociedade. E por conta disto é a que mais deve ser exposta para a transformação ocorrer. Como o sexo, seja ele qual for, é carregado de culpa, o sexo gay é carregado em dobro, em triplo. E assim que o sexo gay for exposto e se tornar natural, tende a naturalizar às demais práticas. E uma sociedade sexualmente satisfeita é uma sociedade menos violenta, menos, perversa, menos hipócrita, menos cheio de mazelas. O sexo gay tem a capacidade de fazer qualquer sociedade ficar melhor.

Pode parecer exagero o argumento utilizado no filme, poucos homens heterossexuais iriam aceitar fazer sexo com outro homem, mas a questão não é a prática em si, e sim a aceitação desta. E não somente da prática gay, mas de qualquer outra prática que o desejo peça. O sexo tem a força de libertar sociedades e culturas. E isto não é ficção de cinema.

A humanidade tem pouco tempo para descobrir a força que o sexo tem e entendê-lo como algo natural. Futuramente as técnicas de fertilização ultrapassarão a reprodução sexuada e a vida perecerá. A liberdade vem com o sexo. O sexo ajuda a alcançar a Verdade. Sexo é beleza. E sexo é prazeroso aos que sentem prazer com ele. Os animais, quando no cio, copulam a qualquer hora, em qualquer lugar, na frente dos filhotes, copulam com o pai, com a mãe, com os irmãos. É a natureza deles. E é a natureza dos humanos. E se é a natureza, é natural.

Não há aqui nenhum incentivo para as práticas sexuais exageradas, nem ilegais, nem amorais. Há somente a exposição que a sociedade é hipocritamente doente ao não querer reconhecer algo básico e fundamental para si mesma. A sociedade, ao perceber os benefícios na aceitação dos desejos, terá um ganho além dos orgasmos. O ganho é uma maior civilidade. Sim, sexo é civilidade.

O desejo é algo natural. Resta aguardar que a humanidade deseje o mesmo.

Comentários

  1. Interessante post

    Tanto que se poderia dizer ao que se gosta e não se gosta :)

    Grande abraço e bom Carnaval

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    1. A humanidade é feita de desejos, todo o tempo. Meu desejo neste momento é ter-me feito entender que o mal do mundo é o sexo, e somente através dele chegaremos ao bem.

      Comecemos pelo Carnaval.

      Abraços!

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  2. Mais didático impossível! O desejo é algo natural. Resta aguardar que a humanidade deseje o mesmo.

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    1. Didático, sim, mas as pessoas fogem da escola. Terão que aprender na tentativa-e-erro.

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  3. Nossa, amei ler aqui, eu voltei porque havia comentado a postagem anterior e para modificar, copiei e colei para o amigo em comum, que foi entrevistado, dai li aqui e fiquei muito feliz por ter pessoas tão bem esclarecidas, tão bem humorada, pois é, deu até para rir, pois a maioria dá tanta ênfase aos "pecados" do sexo que nunca param para pensar, refletir, sentir a vida com toda a naturalidade.
    Didático texto que nos mostra caminhos, entendimentos, errar é humano, corrigir os erro é mesmo algo que esperamos que um dia as pessoas aprendam!
    Ser feliz, sempre escrevo em meus textos, nascemos para sermos felizes, sem esse objetivo a vida fica sem sentido!
    Abraços Jonas Belfort, parabéns pelo belo blog!

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    1. Fico feliz que tenhas gostado do texto, Ivone! Apenas reflexo da lógica, tão em falta nas mentes contemporâneas. Sinta-se à vontade para voltar sempre neste espaço o qual divido com o João Fadário!
      Abraços!

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    2. Obrigada pelo convite, estou começando aqui e já li a entrevista muito boa por sinal do seu colega de blog, João Fadário!
      Abraços apertados aos dois!

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